SIG Revista de Psicanálise https://ojs.sig.org.br/index.php/sig <p>A SIG Revista de Psicanálise é a publicação científica da Sigmund Freud Associação Psicanalítica, editada regularmente desde 2012. Nos formatos impresso e online, em duas edições anuais, publica artigos teórico e teórico-clínicos, ensaios, resenhas, traduções de artigos de autores estrangeiros e entrevistas no campo psicanalítico. Publica, ainda, textos voltados à interlocução entre a psicanálise e outros campos do saber, como filosofia, literatura, história e outras áreas ligadas ao estudo crítico da sociedade e da cultura. As propostas de publicação devem ser originais e inéditas no Brasil e serão recebidas em fluxo contínuo.</p> Sigmund Freud Associação Psicanalítica pt-BR SIG Revista de Psicanálise 2316-6010 A matéria do tempo https://ojs.sig.org.br/index.php/sig/article/view/264 <p>A conferência realizada na 20a Jornada da Sigmund Freud Associação Psicanalítica discute as transformações da angústia na contemporaneidade a partir do diálogo entre psicanálise, arte e cultura. Investiga como mudanças históricas e sociais modulam as formas de manifestação da angústia, articulando referências psicanalíticas às configurações subjetivas atuais. Ao abordar a passagem da modernidade sólida à ultramodernidade gasosa, o autor sustenta que, apesar das tentativas contemporâneas de silenciamento da angústia por meio da medicalização, do consumo e da aceleração da vida, ela permanece como elemento central da experiência humana e operador fundamental da clínica psicanalítica.</p> Mariano Horenstein Copyright (c) 2026 SIG Revista de Psicanálise https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 2026-08-25 2026-08-25 15 2 e2911 e2911 10.59927/sig.v15i2.264 A voz da agonia https://ojs.sig.org.br/index.php/sig/article/view/176 <p>Na clínica psicanalítica, a escuta sensível ao mal-estar que escapa ao simbólico torna necessário acolher o não dito. Neste artigo, procura-se explorar a denominação frequente de <em>agonia</em>, por parte de analisandos, a fim de referir o que ameaça e dificulta a vida cotidiana. Para explorar o tema da agonia, toma-se, inicialmente, o texto freudiano de 1930, O mal-estar na <em>civilização</em>, no qual o autor propõe que a produção de sofrimento se dá por três direções: do próprio corpo, do mundo externo e das relações com outros seres humanos. A partir da ênfase nessa terceira fonte, entende-se <em>cultura</em> como algo que se constrói na relação com o outro, que influi de forma significativa na constituição da subjetividade. É inevitável, portanto, considerar a relação que inaugura todas as outras. A agonia, como tema explorado por diferentes autores ao longo do artigo, revela-se como um fio afetivo que denuncia uma falha básica, precoce, gerada na relação com o outro, um estado ligado a um desamparo extremo. A agonia, nomeada como um sentimento além da angústia, também pode expressar um colapso psíquico, uma vivência primitiva, algo que escapa à simbolização, uma experiência-limite do sujeito, uma ansiedade de aniquilamento. É a voz da agonia que assombra a contemporaneidade: ocorrências pretéritas que retornam, povoando a vida psíquica de intensidades para as quais ainda não se encontraram sentidos e que, por seguirem assombrando, geram dores aterrorizantes. Nessa direção, o artigo explora a proposição de ser no espaço analítico que se dá a possibilidade de que esse estado retorne como uma memória corporal e psíquica não simbolizada sobre algo vivido em tais condições. O trabalho sensível do analista na transferência dá condições para que os sentidos construídos abram, para o analisando, perspectivas de existência distintas do aprisionamento da agonia.</p> Roseli Dal Bem Fistarol Flávia Bernardi Copyright (c) 2026 SIG Revista de Psicanálise https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 2026-07-06 2026-07-06 15 2 e2905 e2905 10.59927/sig.v15i2.176 Conversando com o objeto transformacional de Christopher Bollas https://ojs.sig.org.br/index.php/sig/article/view/224 <p>O presente ensaio propõe-se a dialogar com o conceito de objeto transformacional na obra de Christopher Bollas. O conceito, gestado entre 1973 e 1977 e publicado em<em> A sombra do objeto</em>, de 1987, designa a experiência pela qual o bebê é transformado na relação com a mãe antes de constituí-la como objeto total. Essa experiência não se inscreve como traço mnêmico de conteúdo, mas como memória de processo — de caráter estético — que orienta, de modo persistente, a busca por experiências transformacionais ao longo da vida. O ensaio examina articulações do conceito com outras formulações de Bollas, como o <em>impensado conhecido</em>, o <em>destiny drive</em> e o<em> idioma pessoal</em>, situando-o em relação à metapsicologia freudiana e ao pensamento de Winnicott. Argumenta-se que o objeto transformacional não se opõe às formulações freudianas centradas no conteúdo representacional, mas as complementa ao deslocar o foco para os processos inconscientes procedurais e para a dimensão estética da experiência subjetiva. São também examinadas implicações clínicas do conceito, com ênfase no lugar do analista como objeto transformacional na cena analítica, na dialética da diferença como princípio técnico e na centralidade do idioma pessoal do analista no curso do processo. O texto inclui ilustrações clínicas do autor e propõe articulações teóricas próprias, em consonância com o estilo ensaístico que orienta sua escrita.</p> Lucas Aubin Kruger Copyright (c) 2026 SIG Revista de Psicanálise https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 2026-08-26 2026-08-26 15 2 e2910 e2910 10.59927/sig.v15i2.224 O terror, o estranho e o dionisíaco https://ojs.sig.org.br/index.php/sig/article/view/198 <p>O período moderno na filosofia compreende uma secção histórica que se localiza entre os séculos XVII e XX. Em seu período tardio, teve como uma de suas características o questionamento da racionalidade estrita como forma de conhecer e proporcionou o surgimento da estética como disciplina filosófica. Esse movimento ocorreu na Alemanha do século XIX e teve como mote inicial os autores do romantismo, dentre os quais se destaca Hoffmann. Tal movimento influenciou a filosofia do mesmo período e, a partir do resgate da tragédia grega enquanto poética, suscitou o trágico no âmbito da filosofia, do qual Nietzsche reconhece participar. No final do século XIX, Freud inaugura a psicanálise e propõe uma práxis clínica teorizada a partir de inúmeras referências à mitologia grega e ao romantismo alemão. O presente trabalho tem como objetivo investigar possíveis correlações entre atributos discutidos pelos três autores, o que sugere uma interlocução entre eles a partir desse contexto histórico, filosófico e estético. O terror, o estranho e o dionisíaco figuram como elementos de uma nova subjetividade, marcada pelo trágico e pela superação de um ideal clássico pautado pelo bom, belo, verdadeiro e consciente. A partir da análise das obras<em> Os elixires do diabo, O nascimento da tragédia</em> e <em>O estranho</em>, buscar-se-ão conexões e possíveis divergências entre os três autores.</p> Bruno Werneck Copyright (c) 2026 SIG Revista de Psicanálise https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 2026-07-06 2026-07-06 15 2 e2902 e2902 10.59927/sig.v15i2.198 E se a psicanálise não fosse binária? https://ojs.sig.org.br/index.php/sig/article/view/212 <p>O presente artigo propõe uma leitura crítica de certos modelos ontológicos e epistemológicos universalizados na tradição psicanalítica freudiana, especialmente daqueles organizados a partir de lógicas binárias como fálico/não fálico, eu/outro e humano/não humano. Argumenta-se que tais operadores, ao serem naturalizados, não atuam apenas no plano intrapsíquico, mas participam da produção e da atualização de paradigmas hierarquizantes articulados historicamente ao patriarcado, à colonialidade e ao capitalismo. Sustenta-se que esses regimes binários podem restringir a inteligibilidade clínica de experiências dissidentes de gênero, corpo, sexualidade e alteridade, reinscrevendo formas de sofrimento vinculadas ao trauma colonial. A partir de uma releitura crítica de determinados modelos presentes na obra freudiana — especialmente em Totem e tabu —, o artigo interroga os efeitos clínicos e epistemológicos da universalização da diferença sexual como paradigma organizador do humano. Em seguida, mobiliza o pensamento de Sándor Ferenczi, particularmente o conceito de utraquismo, não como simples contraponto à teoria freudiana, mas como deslocamento epistemológico capaz de abrir a psicanálise a formas não binárias de produção de conhecimento. Ao privilegiar mutualidades, oscilações, ritmos irregulares e zonas de indeterminação entre Eu e Outro, Ferenczi oferece pistas para uma clínica mais sensível às reverberações coloniais inscritas no psiquismo e mais capaz de acolher experiências subjetivas que escapam às categorias clássicas da diferença sexual.</p> Ligia Maria Durski Copyright (c) 2026 SIG Revista de Psicanálise https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 2026-07-27 2026-07-27 15 2 e2906 e2906 10.59927/sig.v15i2.212 Trieb e Naturalismo em Freud e Nietzsche https://ojs.sig.org.br/index.php/sig/article/view/160 <p>Esta pesquisa teórico-conceitual explora as convergências e divergências entre as perspectivas naturalistas de Trieb presentes nos escritos freudianos de 1895, 1905 e 1915 e nas obras nietzschianas publicadas em 1872, 1882 e 1887. Para tanto, realiza-se uma análise detalhada do naturalismo darwinista, que norteou a formulação da terminologia na metapsicologia freudiana, bem como do naturalismo antidarwinista de Nietzsche, que fundamentou, de maneira precursora, o conjunto de impulsos inconscientes associados ao conceito de Trieb. Além disso, examinam-se as diferenças no modo como cada autor concebe o vínculo entre instinto, cultura e subjetividade. O debate entre Freud e Nietzsche propicia o esclarecimento das raízes científicas e filosóficas da expressão germânica, permitindo uma compreensão mais ampla das concepções de “ser humano” e “natureza” que permearam e moldaram o espírito da época, fomentando, de maneira decisiva, o surgimento da psicanálise como campo autônomo de saber.</p> Ísis Lopes Zisels Copyright (c) 2026 SIG Revista de Psicanálise https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 2026-07-06 2026-07-06 15 2 10.59927/sig.v15i2.160 O terror da escrita https://ojs.sig.org.br/index.php/sig/article/view/158 <p>Considerando a autossociobiografia como gênero discursivo singular, que emerge e adquire popularidade na contemporaneidade ao apresentar trajetórias de trânsfugas de classe, o presente artigo visa discutir a cisão do eu como constituinte da escrita dessas narrativas. Especificamente, será analisado um trecho que evoca elementos da cisão a partir da obra O lugar (1983), primeira narrativa em que Annie Ernaux concretiza seu projeto de escrita autossociobiográfica ao relatar a vida e a morte de seu pai. O trecho será correlacionado às noções de luto, trauma e cisão do eu. A cisão evocada por Ernaux retém parte do que não tem sentido e produz um efeito real. Concluímos indicando que a autossociobiografia presentifica o objeto perdido, situa uma parte da angústia e cria uma ligação narrativa que inscreve e situa um lugar para a morte.</p> Maria Eduarda Freitas Moraes Copyright (c) 2026 SIG Revista de Psicanálise https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 2026-07-06 2026-07-06 15 2 e2904 e2904 10.59927/sig.v15i2.158 Formas atuais do incêndio https://ojs.sig.org.br/index.php/sig/article/view/231 <p>Passando por situações clínicas, trechos literários e fenômenos sociais, a autora tem como fio condutor “a loucura do Eu tomado pelas paixões”. Quais são as formas atuais desse fenômeno? E como analisá-las? Em seu percurso, contribui para aquilo que Freud considerava um dos pontos mais difíceis da clínica: o manejo da transferência em situações passionais.</p> Luiz Moreno Guimarães Reino Copyright (c) 2026 SIG Revista de Psicanálise https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 2026-07-27 2026-07-27 15 2 e2907 e2907 10.59927/sig.v15i2.231 Perversão social e paixão pela instrumentalidade https://ojs.sig.org.br/index.php/sig/article/view/223 <p>Esta resenha examina criticamente a obra <em>O grupo e o mal: estudo sobre a perversão social</em>, de Contardo Calligaris, publicada originalmente como tese de doutorado e recentemente traduzida para o português, destacando a relevância teórica do conceito de perversão social para a compreensão dos vínculos entre sujeito, grupo e violência legitimada. Em diálogo com Sigmund Freud e Hannah Arendt, Calligaris sustenta que o mal não decorre de uma essência monstruosa, mas de uma estrutura subjetiva marcada pela “paixão pela instrumentalidade”, na qual o sujeito encontra satisfação psíquica ao se tornar instrumento de um ideal coletivo, frequentemente encarnado pelo Estado ou por um líder, ao mesmo tempo em que reduz o outro à condição de objeto. A resenha destaca a distinção entre perversão sexual e perversão social, enfatizando que esta última não se restringe a um desvio pulsional, mas corresponde a uma organização estrutural que implica a objetificação do outro e a submissão do sujeito a uma lógica instrumental. Nesse contexto, fenômenos de massa favorecem a suspensão parcial do recalque e reforçam processos identificatórios que fragilizam a responsabilidade subjetiva, possibilitando a legitimação de práticas violentas sob a justificativa de um suposto bem comum. Ao articular clínica, teoria psicanalítica e análise sociopolítica, Calligaris reafirma a tese freudiana de que a psicologia individual é, desde o início, também psicologia social. Conclui-se que o conceito de perversão social constitui uma ferramenta conceitual fundamental para a compreensão dos fenômenos contemporâneos de adesão subjetiva a ideais autoritários, evidenciando a atualidade e a potência crítica da psicanálise na análise do laço social.</p> Gabriel Crespo Soares Elias Amanda Pinho Nunes da Silva Pereira Copyright (c) 2026 SIG Revista de Psicanálise https://creativecommons.org/licenses/by/4.0 2026-07-27 2026-07-27 15 2 e2908 e2908 10.59927/sig.v15i2.223