Vidas apagadas pela ditadura civil-militar brasileira

o traumático da violência e o tempo da escrita testemunhal

Autores

  • Gabriela Weber Itaquy UFRGS
  • Edson Luiz André de Sousa APPOA
  • Analice de Lima Palombini UFRGS

DOI:

https://doi.org/10.59927/sig.v15i1.170

Palavras-chave:

Ditadura civil-militar brasileira, Psicanálise, Trauma, Escrita testemunhal

Resumo

Durante a ditadura civil-militar brasileira, 434 pessoas foram mortas ou sofreram desaparecimento forçado, além dos inúmeros casos não confirmados, como o extermínio de indígenas e camponeses. O referido artigo se propõe, por meio da psicanálise, a elucidar o tempo do traumático e as possíveis formas de elaboração de um trauma individual e social através da escrita testemunhal. Assim, coletamos restos da história de uma desaparecida política, Ana Rosa Kucinski, a partir de arquivos e da obra literária de Bernardo Kucinski, K: relato de uma busca. Como conclusão, aponta-se para a escrita testemunhal como uma linguagem possível diante do traumático e, por consequência, uma via de transmissão através da potência da criação e do ficcional. Torna-se necessária uma longa caminhada para que haja a garantia da memória, da justiça e da efetivação dos processos de elaboração do luto pelas vítimas e familiares, e a escrita pode proporcionar a historicização e o testemunho do traumático.

Biografia do Autor

Gabriela Weber Itaquy, UFRGS

Psicóloga e psicanalista. Mestre em Psicologia Social e Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e doutoranda no mesmo programa.

Edson Luiz André de Sousa, APPOA

Psicanalista. Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA). Professor titular aposentado do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Doutor e pós-doutor pela Universidade de Paris VII. Pós-doutor pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) em Paris.

Analice de Lima Palombini, UFRGS

Psicóloga. Professora titular aposentada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Docente convidada do PPG em Psicologia Social e Institucional da mesma universidade. Mestre em Filosofia pela UFRGS. Doutora em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

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15-03-2026

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Artigos