E se a psicanálise não fosse binária?

Binarismo, trauma colonial e Ferenczi como abertura para uma epistemologia não binária

Autores

DOI:

https://doi.org/10.59927/sig.v15i2.212

Palavras-chave:

Psicanálise, Binarismo, Ferenczi, Epistemologia não binária, Trauma colonial

Resumo

O presente artigo propõe uma leitura crítica de certos modelos ontológicos e epistemológicos universalizados na tradição psicanalítica freudiana, especialmente daqueles organizados a partir de lógicas binárias como fálico/não fálico, eu/outro e humano/não humano. Argumenta-se que tais operadores, ao serem naturalizados, não atuam apenas no plano intrapsíquico, mas participam da produção e da atualização de paradigmas hierarquizantes articulados historicamente ao patriarcado, à colonialidade e ao capitalismo. Sustenta-se que esses regimes binários podem restringir a inteligibilidade clínica de experiências dissidentes de gênero, corpo, sexualidade e alteridade, reinscrevendo formas de sofrimento vinculadas ao trauma colonial. A partir de uma releitura crítica de determinados modelos presentes na obra freudiana — especialmente em Totem e tabu —, o artigo interroga os efeitos clínicos e epistemológicos da universalização da diferença sexual como paradigma organizador do humano. Em seguida, mobiliza o pensamento de Sándor Ferenczi, particularmente o conceito de utraquismo, não como simples contraponto à teoria freudiana, mas como deslocamento epistemológico capaz de abrir a psicanálise a formas não binárias de produção de conhecimento. Ao privilegiar mutualidades, oscilações, ritmos irregulares e zonas de indeterminação entre Eu e Outro, Ferenczi oferece pistas para uma clínica mais sensível às reverberações coloniais inscritas no psiquismo e mais capaz de acolher experiências subjetivas que escapam às categorias clássicas da diferença sexual.

Biografia do Autor

Ligia Maria Durski, USP

Psicóloga. Psicanalista. Doutora em Psicanálise pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP). Membro do Espaço de Estudos Psicanalíticos (EBEP-RJ). Desenvolve pesquisas nas áreas de psicanálise, epistemologia, colonialidade, gênero e clínica contemporânea.

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Publicado

27-07-2026

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Artigos